Usar IA no marketing é permitido no Brasil, mas não tira da empresa a responsabilidade pelo que ela publica. Os riscos principais são cinco: dado pessoal usado sem base na LGPD, conteúdo sintético que engana, segmentação com viés, autoria incerta e informação inventada pela ferramenta. Cada um pede uma regra prática e revisão humana.
O que a lei brasileira diz sobre IA no marketing hoje?
O Brasil ainda não tem uma lei geral de inteligência artificial. O PL 2338/2023, que cria o marco legal da IA, foi aprovado no Senado em 10 de dezembro de 2024 e enviado à Câmara em março de 2025. Em setembro de 2026, a ficha de tramitação da Câmara ainda o mostrava aguardando parecer na comissão especial.
Isso não significa ausência de regra. Quem usa IA no marketing já responde por quatro normas:
| Risco | Norma que se aplica | Regra prática |
|---|---|---|
| Dado pessoal usado para treinar ou alimentar a IA | LGPD (Lei 13.709/2018) | Base legal, finalidade definida e ferramenta que não treina com os seus dados |
| Imagem, voz ou depoimento sintético que engana | Código de Defesa do Consumidor e código do CONAR | Nada que possa ser tomado por real sem ser |
| Segmentação que exclui ou discrimina | LGPD (princípio da não discriminação) e CDC | Revisar público e critérios antes de publicar |
| Texto ou imagem sem autoria clara | Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998) | Edição humana e leitura dos termos da ferramenta |
| Informação inventada pela IA | CDC (publicidade enganosa) | Revisão humana de preço, prazo, condição e afirmação técnica |
Quem vende para a União Europeia tem uma regra a mais. O artigo 50 do AI Act europeu, com aplicação prevista a partir de 2 de agosto de 2026, exige que deepfakes e conteúdos gerados por IA sejam identificados como tais, com exceções.
Como usar dados pessoais com IA sem violar a LGPD?
A LGPD vale para qualquer tratamento de dado pessoal, inclusive o feito por uma ferramenta de IA. Três pontos da lei pesam mais no marketing. Os princípios de finalidade e de transparência exigem que o cliente saiba para que o dado é usado. O princípio da não discriminação proíbe tratamento para fins discriminatórios ilícitos ou abusivos. E o artigo 20 dá ao titular o direito de pedir a revisão de decisões tomadas unicamente por tratamento automatizado, inclusive as que definem o seu perfil de consumo.
A autoridade de proteção de dados já agiu nesse tema. Em julho de 2024, a ANPD determinou que a Meta suspendesse o uso de dados pessoais de usuários brasileiros para treinar a sua IA, sob multa diária de R$ 50 mil. Entre os problemas apontados estavam a base legal inadequada, a falta de informação clara aos usuários e a falta de salvaguardas para dados de crianças e adolescentes. A empresa só retomou o uso depois de cumprir um plano de conformidade.
Na prática, para uma pequena ou média empresa:
Não cole a base de clientes em uma ferramenta de uso público. Nome, telefone, e-mail e histórico de compra são dados pessoais.
Leia a configuração de privacidade da ferramenta. Prefira a opção em que os seus dados não são usados para treinar o modelo.
Anonimize quando der. Para pedir uma análise de vendas, a IA não precisa do nome do cliente.
Atualize o aviso de privacidade se o atendimento, o chatbot ou a segmentação passarem a usar IA.
É preciso avisar que o conteúdo foi feito com IA?
A pergunta certa é outra: o conteúdo pode enganar alguém? O Código de Defesa do Consumidor diz que "é proibida toda publicidade enganosa ou abusiva" (art. 37) e que a publicidade deve ser identificada como tal "fácil e imediatamente" (art. 36).
O CONAR foi na mesma linha. A edição de 2026 do Guia de Publicidade por Influenciadores Digitais, em vigor desde 1º de junho de 2026, afirma que as regras valem qualquer que seja a tecnologia usada para produzir, editar ou segmentar a mensagem. Influenciador virtual, avatar, deepfake e conteúdo sintético não isentam anunciante, agência nem influenciador.
Regras práticas:
Nunca crie depoimento, cliente ou avaliação que não existiu. Com ou sem IA, isso é publicidade enganosa.
Não use rosto ou voz de pessoa real sem autorização, nem para "brincadeira".
Sinalize quando a imagem pode ser tomada por real, como um "antes e depois" ou a foto de um produto que ainda não existe.
Mantenha a identificação de publicidade em conteúdo de influenciador, mesmo quando o influenciador é virtual.
Como evitar viés na segmentação e nos anúncios?
A IA aprende com dados históricos e pode repetir distorções deles. No marketing, isso aparece de dois jeitos: o algoritmo passa a mostrar um anúncio só para um perfil de público, ou a peça gerada reforça um estereótipo. O CDC considera abusiva, entre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza.
Revise quem ficou de fora do público antes de publicar, e não só quem ficou dentro.
Não use critérios sensíveis (origem, religião, saúde, orientação sexual) para segmentar oferta.
Olhe o relatório de entrega por idade, gênero e região. Se o anúncio só chega a um grupo, entenda o motivo.
Peça a mais de uma pessoa da equipe que revise as peças geradas por IA antes de subir.
Quem é dono do texto ou da imagem feita por IA?
A Lei de Direitos Autorais diz, no artigo 11, que "autor é a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica". Ela não trata de forma expressa do conteúdo gerado por máquina. Por isso, a proteção de um texto ou imagem feito só pela IA é incerta, e a marca pode ter dificuldade de impedir que outros copiem esse material.
Edite de verdade. Texto e imagem com trabalho humano relevante têm autoria mais clara.
Leia os termos de uso da ferramenta, sobretudo o que dizem sobre uso comercial.
Evite pedir "no estilo de" um artista ou de uma marca. O resultado pode reproduzir elementos protegidos.
Confira a imagem antes de publicar. Logotipo alheio, rosto reconhecível e texto distorcido passam despercebidos.
E quando a IA inventa uma informação?
Ferramentas de IA generativa podem produzir respostas erradas com tom de certeza. Quando isso chega ao cliente, a empresa responde. Em 2024, um tribunal do Canadá condenou a Air Canada a indenizar um passageiro porque o chatbot do site informou uma regra de reembolso que não existia. A decisão, Moffatt v. Air Canada, rejeitou o argumento de que o chatbot seria responsável pelos próprios atos. Para o tribunal, a empresa responde por toda a informação do próprio site.
Revise sempre preço, prazo, condição comercial, dado técnico e afirmação de saúde ou de resultado.
Limite o chatbot a uma base de respostas aprovada, com passagem para um atendente quando a pergunta sair dela.
Não publique estatística gerada pela IA sem abrir a fonte original.
O mesmo cuidado vale para o conteúdo que você quer ver citado por ChatGPT, Gemini e Perplexity. Texto com fonte verificável e resposta direta é o que tem mais chance de ser usado, e é o princípio do trabalho de SEO para buscadores e IAs.
Como montar uma política de uso de IA na empresa?
Uma página basta para começar.
Liste as ferramentas aprovadas e para que cada uma pode ser usada.
Defina o que nunca entra na IA: dados pessoais de clientes, contratos, informação financeira.
Defina o que sempre passa por revisão humana: peça publicada, resposta ao cliente, preço e promessa.
Proíba depoimento, avaliação e pessoa sintéticos apresentados como reais.
Registre quem revisou cada peça antes da publicação.
Atualize o aviso de privacidade quando um novo uso de IA envolver dado pessoal.
Revise a política a cada seis meses, porque a lei e as ferramentas mudam.
A IA rende mais quando automatiza o que se repete e deixa a decisão com as pessoas. É o critério que a Renove Digital usa ao montar automações de atendimento e de marketing: a máquina faz a triagem, o registro e o lembrete, e a pessoa responde pelo que é dito ao cliente. Para o quadro mais amplo do que muda neste ano, veja o artigo sobre as principais mudanças do marketing em 2026.
Perguntas frequentes
Já existe lei de inteligência artificial no Brasil?
Ainda não há uma lei geral. O PL 2338/2023, que cria o marco legal da IA, foi aprovado no Senado em dezembro de 2024 e, em setembro de 2026, seguia em análise na Câmara. Enquanto isso, valem para o marketing a LGPD, o Código de Defesa do Consumidor, a Lei de Direitos Autorais e o código do CONAR.
Preciso avisar que um anúncio foi feito com IA?
A regra de base é não enganar. O Código de Defesa do Consumidor proíbe publicidade enganosa, e o CONAR afirma que suas regras valem qualquer que seja a tecnologia usada. Se uma imagem ou um depoimento pode ser tomado por real sem ser, sinalize ou não use.
Posso colocar dados de clientes em uma ferramenta de IA?
Só com base legal na LGPD, finalidade definida e uma ferramenta que não use esses dados para treinar o próprio modelo. Na dúvida, anonimize antes. Nome, telefone e histórico de compra são dados pessoais.
Um texto ou imagem feito por IA tem direito autoral?
A lei brasileira diz que autor é a pessoa física criadora da obra e não trata de forma expressa do conteúdo gerado por máquina. A proteção de algo feito só pela IA é incerta. Revisão e edição humanas, além da leitura dos termos de uso da ferramenta, reduzem o risco.



